Arte e Natureza no espaço urbano

Arte e Natureza no espaço urbano

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Questão de pormenor ou erro de palmatória?

Eu prezo muito a língua portuguesa. Respeito-a e procuro não ser apanhado em falta neste domínio. 
Concordarão, no entanto, que, dependendo - entre muitos outros fatores - das funções exercidas por cada indivíduo, sejam eventualmente expectáveis e/ou toleradas algumas incorreções quanto ao uso da língua, nas suas vertentes oral e escrita. Inclusive da língua materna. 
Não concebo, todavia, que um anúncio de cariz oficial / institucional contenha um lamentável erro ortográfico, como aquele que adiante apresento. 
Com efeito, o painel informativo referente à execução de obras de reabilitação de uma escola do primeiro ciclo de S. Mamede de Infesta apresenta o seguinte texto: "INVESTIMENTO ILEGÍVEL  1 623 467,91 Euros"...
Apetece-me dizer que "é dinheiro a mais" para algo que nem conseguiram ler do que se tratava, aquando da tomada de decisão de atribuição da verba em causa. É lamentável, mormente pelo facto do erro se verificar à porta de uma escola...onde se aprende a ler e a escrever. Acho. 
Claro que o investimento em causa foi - isso sim - elegível. Ou seja, a respetiva proposta de intervenção / execução de obra reuniu condições para ser aprovada (leia-se eleita) pelas entidades competentes, tendo sido, subsequentemente, contemplada com tal verba. 
Para finalizar: em minha opinião, justificar-se-ia a aplicação de um castigo com palmatória ao(s) autor(res) do painel.
E lembro, já agora, que se a Escola (stricto sensu) é um elemento patrimonial a valorizar, também o é, seguramente, a língua portuguesa. 
Perspetiva da Escola, em fase de execução de obras de
reabilitação, promovidas pelo Município de Matosinhos
(Departamento de Investimentos e Infraestruturas Municipais).
O painel informativo em causa.
O "erro de palmatória", na terceira linha.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Antiga EFANOR, 2014: uma ruína sem futuro definido

A Empresa Fabril do Norte (ou, simplesmente, EFANOR) foi uma empresa têxtil pioneira em Portugal. Criada em 1907, destacar-se-ia pelo facto de ter sido a primeira fábrica a produzir carrinhos de linha no nosso país (linha de algodão, para coser e bordar, enrolada em "carros" de madeira). Por tal motivo, aliás, seria conhecida, também, por "fábrica dos carrinhos". Implantada na Senhora da Hora (concelho de Matosinhos, distrito do Porto), beneficiando da proximidade ao Porto de Leixões e da existência de uma linha de água no local, essencial ao desenvolvimento da sua atividade produtiva, dispunha de uma área "imensa" - com aproximadamente 15 hectares - sendo que as suas instalações integravam, para além das áreas de produção e de armazenamento, uma área habitacional (em rigor, um bairro com 69 moradias, dispondo cada uma delas de uma pequena horta e jardim), camaratas, um refeitório, uma creche e jardim de infância para os filhos dos seus trabalhadores, um complexo desportivo (composto por um pavilhão e por campos de jogos exteriores) e um corpo privativo de bombeiros, entre outros sinais de modernidade. A EFANOR terá sido, também, a primeira unidade industrial a dispor de energia elétrica em todas as suas instalações, ainda durante a década de 40 do século XX. 
A EFANOR cessou a sua atividade no local em 1994, após aí ter permanecido durante 107 anos. As suas instalações foram adquiridas pelo Grupo SONAE, no intuito de aí ser construído um condomínio (a denominada "Quinta das Sedas") e outras habitações. Após se ter procedido à demolição da maior parte das antigas instalações industriais aí existentes, preservou-se o antigo edifício social da empresa - o qual, depois de amplas obras de restauro e ampliação, viria a acolher o Colégio Efanor (estabelecimento de ensino privado, promovido pela Fundação Belmiro de Azevedo) - e, expressivamente (?), a chaminé e os edifícios, relativamente pequenos, da central de energia (albergando, ainda, um imponente motor alemão, de vinte cilindros) e da antiga tinturaria da fábrica. Foi aventada (já em 2007) a hipótese da Fundação de Serralves criar, aqui, "um edifício multifuncional, onde a arte contemporânea, o património industrial e a ligação ao mundo da moda possam ter lugar". Pelo que se pode observar atualmente no local, tal desígnio ainda está longe de ser concretizado. É pena que assim seja. Muito poderá (deverá...) ser feito, estou convicto, na ótica do respeito pela memória do local.
As cidades  (em rigor, os poderes autárquicos...) terão que encontrar soluções adequadas à alteração / requalificação dos espaços outrora ocupados pelas mais diversas estruturas e valências. Os proprietários e investidores privados, todavia, não poderão ficar alheados deste processo, nunca acabado. De ambos se exigem o bom senso e a competência técnica necessárias para levar a efeito tal empreitada. E, já agora, o bom gosto. 
Deixo-vos algumas imagens das estruturas remanescentes, na atualidade, das antigas instalações industriais da Empresa Fabril do Norte. 
Uma ruína que marca negativamente a paisagem urbana. Até quando?
Ruínas da EFANOR. Perspetiva obtida a partir da Av. da Senhora da Hora, a sul.
Ruínas da EFANOR. Perspetiva obtida a partir da Av. da Senhora da Hora, a sul.
A chaminé da antiga fábrica. Altiva, destacando-se na
paisagem, como muitas outras por esse país fora; ícone
da expansão industrial da primeira metade do século XX. 

sábado, 5 de julho de 2014

Uma questão de bom gosto (...ou de falta dele), apenas.

O Santuário de Nossa Senhora do Sameiro afirma-se, legitimamente, como o segundo maior santuário mariano em Portugal (logo após Fátima). Ao longo dos anos, tem vindo a registar uma notável ampliação e beneficiação das suas instalações, procurando corresponder às diversas (crescentes?) solicitações que lhe são dirigidas. 
Uma das mais emblemáticas construções na envolvente da Basílica do Sameiro - porquanto elemento arquitetónico e religioso mais relevante existente no Santuário - é a denominada Casa das Estampas: um espaço inicialmente concebido para proceder à venda de recordações aos peregrinos e visitantes, acolhendo, ainda, atualmente, um interessante Museu, no qual se expõem peças de natureza diversa, detentoras de apreciável relevância artística e cultural. 
A Casa das Estampas beneficiou da concretização de obras diversas de remodelação - desenvolvidas em 2004 - contemplando estas , nomeadamente, algumas alterações no seu interior, bem como o restauro das suas portas e janelas e a pintura das fachadas. 
No ângulo noroeste do edifício (construído na primeira metade do século XX), sobre uma das suas antigas portas, pode observar-se um dos vários painéis de azulejo que nele se expõem, assumindo uma função mista, informativa e publicitária. 
Desativado tal acesso ao interior do edifício, viabilizou-se a colocação, no local, de uma máquina ATM (vulgo "caixa Multibanco"), com fisionomia do século XXI . A mesma não me parece "ligar" bem com a arquitetura do imóvel...por mais útil que seja o equipamento em causa (...e é). Será que só eu estranho tal opção de localização? Não "ficou muito bem no retrato" a Confraria de Nossa Senhora do Sameiro, creio. A sensibilidade estética cultiva-se e deve ser valorizada. 
Estou certo de que, "por esse país fora", existirão "milhentas" situações afins. Por vários motivos, inevitáveis, como se depreenderá. 

Casa das Estampas, Santuário de Nossa Senhora do Sameiro, Braga. 

terça-feira, 1 de julho de 2014

"Diplomacia": de novo, a II Guerra Mundial, com a temática do Património em "pano de fundo"

Merece(-me) alguma reflexão um filme bem concebido, evocando um episódio verificado hipoteticamente durante a II Guerra Mundial. A obra em causa terá passado de forma algo despercebida nas salas de cinema portuguesas. Nela se cruzam as questões éticas, o respeito e a obediência à hierarquia (decorrente, como se depreende, da exigente condição militar) e, expressivamente, as refinadas artes diplomáticas, tão delicadas quanto necessárias em contexto de guerra. 
O enredo do filme reporta-nos ao mês de agosto do ano de 1944 e à França ocupada pelas forças nazis (desde o ano de 1940). Enquanto que o exército aliado prepara a sua marcha em direção a Paris, o general alemão que governa a cidade - Dietrich von Cholitz - prepara-se para concretizar as ordens recebidas diretamente de Hitler, no sentido de destruir a capital francesa. Nesse sentido, as pontes sobre o Sena, o Palácio (e Museu) do Louvre, a Catedral de Notre Dame, a Torre Eiffel e diversos outros monumentos são armadilhados pelas forças ocupantes, perspetivando-se a sua destruição próxima. 
O cônsul sueco - Raoul Nordling - encontra-se então com von Cholitz no sentido de o demover de executar as ordens insanas de Hitler, potencialmente conducentes à morte de inúmeros inocentes, bem como à perda irreparável de alguns dos mais relevantes e emblemáticos monumentos da Humanidade. 
Aborda-se assim, de novo (à semelhança do verificado em "Os homens dos monumentos"), a questão - nem sempre valorizada - da gravidade e irreversibilidade dos danos patrimoniais associados às operações de guerra. Como todas as partes beligerantes deveriam saber (leia-se "respeitar"), nem todos os fins justificam os meios... 
Sendo verdade que o encontro entre os protagonistas do filme é ficcionado, não menos verdade será o facto de situações de tal natureza não serem inéditas, sendo conhecidas do público, não raras vezes, somente muitos anos após a sua ocorrência. Para que tal aconteça, aliás, tanto contribui o trabalho dedicado e exaustivo dos mais reputados historiadores quanto (embora mais ocasionalmente) os "frutos do acaso" ou as "revelações" tardias de alguns dos intervenientes diretos em distintos episódios de guerra. 
...Voltando ao filme: vejam-no, se puderem (já que, tendo estreado em Portugal a 24 de abril, já saiu das salas de cinema). 
Para despertar a curiosidade e o interesse no filme, deixo o respetivo trailer, legendado em português. 


Em alternativa, o respetivo link.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Sobre o S. João, festa maior do Porto

Cartaz oficial das Festas da
Cidade (Porto) 2010, CMP. 
As festas sanjoaninas estão aí, de novo. 
Ano após ano, estas parecem ser das poucas festas populares que resistem ao correr dos tempos e, sobretudo, às múltiplas alterações associadas à expansão do modo de vida urbano, com tudo o que daí advém no âmbito da adulteração e/ou desaparecimento de algumas tradições locais, de natureza e expressão diversas. 
Longe vão os tempos, no entanto, em que a noite sanjoanina era, sobretudo, marcada pela animação proporcionada pelas numerosas rusgas (mais ou menos organizadas e bairristas) que percorriam a cidade até ao nascer do sol; pelo alho-porro, usado para bater na cabeça das pessoas que se cruzavam nas ruas apinhadas de gente; pelos ramos de cidreira (agradavelmente perfumados), mais usados pelas mulheres, para "provocarem" os homens, tocando-lhes graciosamente com eles no rosto; pelas múltiplas fogueiras, animando a noite fria e húmida e desafiando os mais corajosos a saltarem-lhes por cima, escapando incólumes às altas labaredas ou, ainda, pelo ritual aconchegante de comer pão quente (acabado de fazer) com manteiga, acompanhado de café com leite, às primeiras horas da madrugado do dia 25 de junho. 
Sim, os tempos mudaram... 
Felizmente, os festejos de S. João - e, em particular, os da noite do dia 24 - mantêm, ainda, muitos dos seus (outros) elementos mais característicos: o lançamento de balões de ar quente, sob a orientação de "técnicos experimentados" ou de "ajudantes de ocasião"...; as ruas enfeitadas e coloridas, seja por ação do Município, seja pela iniciativa dos seus mais dinâmicos e orgulhosos moradores; os bailaricos populares, "convidando" todos os foliões para um animado "pé de dança" com parceiros regulares ou "nem por isso"; o deslumbramento proporcionado pelo lançamento de diversos fogos de artifício, colorindo os céus da cidade; os vasos com manjerico, ostentando pequenas quadras populares escolhidas a preceito; as cascatas, quais "presépios estivais", expondo com apreciável rigor e mestria elementos diversos das paisagens rurais e urbanas ou, ainda, a sardinha assada, os pimentos, a boroa e o caldo verde, acompanhados de bom vinho tinto, numa perfeita combinação de sabores... 
Os anos 60 do século XX, por sua vez, trouxeram a "praga" dos martelinhos de plástico, tornados ícone da modernidade sanjoanina e "fazendo a alegria" dos mais novos. E temos (?) de (con)viver com isso, creio.
Atualmente, o S. João faz-se de um pouco de tudo isto...
...Espero que por muito tempo.
Por hoje, deixo-vos com uma imagem de S. João, numa representação "algo distante" daquelas a que estamos mais habituados a ver por esta ocasião. Simplesmente, porque gostei dela. 
Voltarei ao tema, seguramente... 
São João Baptista. Obra de Diogo de Contreiras.
Óleo sobre madeira de carvalho. Escola Portuguesa, circa 1550.
Coleção do Museu de Évora. 

sábado, 14 de junho de 2014

O Centro Histórico de Viseu e o "renovado" interesse pela cidade da Beira Alta

Viseu, a "melhor cidade para viver", de 
acordo com os resultados de estudos 
de opinião realizados pela DECO, em 
2007 e 2012. 
Viseu está a fazer-se notar (mais e melhor) todos os dias. Sabiamente, também ela soube destacar um conjunto de aspetos patrimoniais diversificados, para melhor se dar a conhecer e reclamar a importância que lhe é devida. 
Em abril último, o Município de Viseu deu início ao processo de candidatura do Centro Histórico de Viseu a Património da Humanidade, beneficiando do envolvimento da comunidade local relativamente a esta ambiciosa aposta, potenciadora de inúmeras mais-valias para a cidade. 
A tarefa, todavia, não se afigura fácil, sendo previsivelmente longa a caminhada a efetuar até à obtenção de estatuto idêntico ao alcançado - muito justamente, aliás - por cidades como Angra do Heroísmo, Coimbra, Évora, Guimarães ou Porto, entre outras.
Desde já, não posso deixar de salientar toda a dinâmica implementada em torno da elaboração do respetivo processo de candidatura para apresentação à UNESCO, porquanto concretizou, por si só, uma estreita colaboração entre diversas instituições - públicas e privadas - investigadores das mais variadas áreas e, seguramente, muitos viseenses "anónimos", movidos por uma causa comum. 
Certo é, creio, que a cidade (de Viseu) e o país em muito beneficiarão da atribuição de tal distinção pela UNESCO. A concretizar-se tal expectativa, ganharão os seus habitantes, o seu património edificado, as suas tradições e, seguramente, todos nós. Dessa forma, ficaremos naturalmente (mais) orgulhosos, embora também - nunca nos podendo esquecer de tal... - mais responsabilizados pela imperiosa necessidade de preservarmos as riquezas e especificidades locais, "a cada dia que passa" mais expostas aos olhos do mundo. Esperarei para ver o resultado de tal desígnio... 
Desde já, sugiro a visualização de um pequeno vídeo, produzido pelo Município de Viseu, promovendo  a cidade e a região com apreciável criatividade... 


Em alternativa, o respetivo link. 

...E, ainda, um outro vídeo (muito bem) concebido pelo Jornal de Notícias, apresentado publicamente na conferência "Para que serve um sítio Património da Humanidade?", realizada em Viseu no dia 17 de abril de 2014, aquando do lançamento da candidatura da cidade à obtenção de tal distinção pela UNESCO. 


Em alternativa, o respetivo link. 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Anúncios comerciais evocam uma Évora de outros tempos...

Deu bastante que falar em Évora, na semana passada, uma "descoberta" casual e surpreendente, verificada sob as arcadas dos edifícios existentes nas ruas que convergem para a emblemática Praça do Giraldo. 
Com efeito, no âmbito da concretização de um cuidado programa de limpeza e de recuperação do Centro Histórico, desenvolvido desde abril pela Câmara Municipal de Évora, alguns funcionários da autarquia deram início à raspagem da cal que revestia as paredes e abóbadas das numerosas arcadas que muito justamente se constituíram como "imagem de marca" da arquitetura local. 
Para espanto de muitos - ...se bem que, talvez nem tanto para os mais antigos habitantes da cidade - esta intervenção de carácter simples viria a expor, de novo, um apreciável conjunto de inscrições antigas, de índole publicitária, identificativas de diversos ofícios e estabelecimentos comerciais outrora aí instalados. 
Tais anúncios, datados, na sua maioria, de meados do século XX, dão-nos a conhecer algo mais relativamente à evolução da atividade comercial na cidade, bem como, por outro lado, à tipologia e padrões estéticos das artes gráficas então aplicadas à publicidade. 
Assim, passo a passo sob estas arcadas, protegendo-nos do sol intenso no verão quente que caracteriza a cidade e a região, podemos "dar um saltinho ao passado" e imaginar, de certa forma, como seriam os quotidianos de outros tempos. Sim, porque a história e o conhecimento dos lugares também se fazem de pequenas coisas. 
A Câmara Municipal de Évora - ciente do seu papel no âmbito da preservação de elementos patrimoniais de natureza distinta - irá proceder à análise destas marcas do passado, verificando, em rigor, quais são as inscrições recuperáveis, entendidas como uma mais-valia para a Praça do Giraldo e para a cidade. E, tendo as arcadas um uso público, a autarquia assume todos os custos da requalificação das estruturas em causa. 
Fica, pois, o bom exemplo. A condizer, aliás, com o estatuto de Património Mundial, atribuído pela UNESCO ao Centro Histórico de Évora, em 1986. 

Perspetiva das arcadas da Rua da República.
Arcadas da Rua da República (pormenor).
Arcadas da Rua da República (pormenor). 
Arcadas da Rua João de Deus (pormenor).