Arte e Natureza no espaço urbano

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quarta-feira, 13 de maio de 2015

FÁTIMA, cidade de devoção, santuário e altar do Mundo.

Algum dia teria que escrever sobre Fátima. Ninguém pode ficar indiferente à assombrosa expressão de fé e de devoção que Fátima evidencia ao longo do ano, particularmente entre os meses de maio a outubro, ao evocarem-se as aparições de Nossa Senhora aos três pastorinhos, ocorridas no ano de 1917. 
Seja-se ou não católico, não se poderá ignorar a extraordinária dimensão - física e espiritual - das peregrinações dirigidas ao santuário mariano aqui estabelecido. E isto será, também, seguramente, Património, Memória e Identidade. 
Os múltiplos testemunhos de peregrinos que, por esta altura, nos chegam a casa através dos mais diversos meios de comunicação social, permitem-nos, de certa forma, "tomar o pulso" a um país que - embora, talvez, já não tão "profundamente católico" - sabe agarrar-se como poucos às suas mais íntimas convicções. E, quanto à fé, cada um tem a sua. Um estudo recentemente divulgado, aliás, revelou que um pouco mais de 50% dos portugueses participa numa missa católica, pelo menos, uma vez por semana.
Devo "confessar" que também eu, que nunca fiz qualquer peregrinação a pé até Fátima, senti uma atmosfera especial, serena e apaziguadora, aquando das minhas ocasionais incursões ao santuário, em dias pouco frequentados por devotos e/ou turistas das mais distintas proveniências. 

Deixo-vos uma imagem do santuário, na sua noite maior, a do dia 12 de maio de cada ano, aquando da realização de uma das suas mais emblemáticas celebrações eucarísticas. 


E convido-vos, também, a escutarem o tema "Miraculosa Rainha do Céu", 
pela voz, absolutamente única e expressiva, de Isabel Silvestre.  

 


sábado, 26 de julho de 2014

O antigo Velódromo Maria Amélia e o atual Museu Nacional de Soares dos Reis

Atrever-me-ia a afirmar que a cidade do Porto soube marcar a diferença ao longo dos tempos. Não raras vezes se destacou pelo carácter inovador de algumas das suas infraestruturas e/ou opções estratégicas (assumidas, designadamente, no quadro da sua atividade económica, social e política).
Neste contexto, uma modalidade desportiva em ascensão no decorrer do século XIX - o ciclismo - particularmente do agrado de determinadas elites sociais do meio urbano europeu (e, consequentemente, nacional) viria a induzir a criação, numa área privilegiada da cidade do Porto, de um espaço especialmente concebido para a sua prática regular. Nascia assim, no ano de 1894, na Quinta do Paço - propriedade então pertencente ao Rei D. Carlos e que incluía o "Palácio dos Carrancas" (detentor do estatuto de Paço Real) - aquele que viria a ser designado por Velódromo Maria Amélia, honrando a figura da Rainha D. Maria Amélia de Orleães, consorte do monarca reinante. O acesso ao mesmo fazia-se pela Rua de Adolfo Casais Monteiro (antiga Rua do Pombal).

Perspetiva do interior do quarteirão definido pelas ruas de D. Manuel II, do
Rosário, de Miguel Bombarda e de Adolfo Casais Monteiro. Ao centro, a
forma inconfundível do antigo velódromo, inserido no atual Jardim da Cerca,
do MNSR (imagem retirada de https://www.google.pt/maps) 

A pista de ciclismo aí concebida obedecia, à época, às regras internacionalmente impostas pela modalidade e na qual se percorria um quilómetro cumpridas três voltas à mesma. Uma volta completa dada à pista correspondia, pois, a rigorosos 333,33 metros de percurso.
O terreno em causa, como se referiu, foi doado pelo Rei D. Carlos ao prestigiado Velo Club do Porto, em 1893, antecipando as comemorações do V centenário do nascimento do Infante D. Henrique (n. 04.03.1394, Porto). O mesmo situava-se (e situa-se, ainda) nas traseiras de um magnífico imóvel neoclássico (cuja construção foi iniciada em 1795) que se encontrava na posse da Família Real desde o ano de 1861 e que viria a albergar, em 1940, o Museu Nacional de Soares dos Reis. Entre os anos de 1932 e 1939 a propriedade esteve na posse da Santa Casa da Misericórdia do Porto, que a recebera na sequência da morte do antigo monarca, segundo a sua vontade.
Durante a primeira década do século XX, o Velódromo Maria Amélia destacou-se como o maior recinto desportivo da cidade do Porto, correspondendo às solicitações de um público diversificado e, sobretudo, entusiasta da modalidade. O espaço (dispondo originalmente de uma extensa bancada coberta e de três courts de ténis na sua área central) encerraria portas (em rigor, portões...) em 1910, na sequência da implantação da República e da ida do Rei D. Manuel II para o exílio.
Após várias décadas de relativa resiliência, o antigo velódromo veria ser comprometida a sua apreciável (apreciada?) integridade física, até então satisfatoriamente preservada, ainda que sem o "brilho" de outrora. Com efeito, no âmbito de uma intervenção arquitetónica aí realizada em 1992 - mediante projeto do Arq.º Fernando Távora - o Museu concretizaria a implantação de uma nova construção no local (anexa ao limite norte do edifício original), no intuito de, legitimamente, poder proporcionar um melhor serviço aos seus visitantes.
Em 2001, por sua vez, concluindo-se o projeto anteriormente iniciado, seriam ainda concretizadas duas outras construções, destinando-se a maior delas (possuidora de uma extensa fachada envidraçada), contígua ao edifício do Museu, a servir refeições ou a acolher reuniões, palestras ou festas. Intercetavam-se, assim, definitivamente, os segmentos retilíneos da antiga pista velocipédica. Restam relativamente intactos, "timidamente", os seus característicos topos curvos e em relevé, verdadeira "imagem de marca" de infraestruturas desta natureza. Como que, de certa forma, a evocar o passado nobre e singular da infraestrutura, pese embora manifestamente esquecido.
O espaço em causa corresponde, atualmente, ao Jardim da Cerca (do Palácio dos Carrancas), ou seja, a uma vasta área (ocasionalmente) utilizada para a realização de eventos e atividades diversas ao ar livre, sejam elas da iniciativa do Museu, sejam da responsabilidade de outras entidades que porventura a requisitem.
Ficam aqui algumas imagens do local, repleto de memórias do seu passado pouco conhecido, como que a sugerir uma "espreitadela" por parte dos mais curiosos...
Recomendo também, obviamente, uma visita "sem pressas" ao Museu, possuidor de coleções riquíssimas e diversificadas, bem como promotor de uma agenda ambiciosa, correspondendo aos gostos mais ecléticos.
Em jeito de comentário final, não posso deixar registar a incontornável dificuldade - também aqui evidenciada- no que concerne à compatibilização de interesses e sensibilidades várias associadas à transformação dos espaços.
Como em muitas outras situações (na vida), dever-se-á evitar adoção de posições eminentemente fundamentalistas, creio.
No caso vertente - de certa forma paradigmático, neste domínio - dever-se-á, sobretudo, confiar no bom senso, na competência e na capacidade de discernimento por parte da Direção do Museu.

Perspetiva do Átrio da Cerca, concebido no edifício inaugurado em 2001,
obtida a partir do Jardim da Cerca (área central do antigo velódromo) 
Perspetiva do topo nascente da antiga pista velocipédica, identificando-se
a respetiva curvatura em relevé, bem característica de estruturas desta natureza 
Perspetiva geral do topo nascente da antiga pista velocipédica.
O pavimento, empedrado, resulta da intervenção arquitetónica de 2001
Perspetiva de uma secção retilínea (setor sul)
 da antiga pista velocipédica 
Marco em pedra granítica, gravado em baixo relevo, exposto no local,
evocativo da fundação do Velo Club do Porto, em 1893
(imagem retirada de http://ovelocipedista.wordpress.com) 

terça-feira, 1 de julho de 2014

"Diplomacia": de novo, a II Guerra Mundial, com a temática do Património em "pano de fundo"

Merece(-me) alguma reflexão um filme bem concebido, evocando um episódio verificado hipoteticamente durante a II Guerra Mundial. A obra em causa terá passado de forma algo despercebida nas salas de cinema portuguesas. Nela se cruzam as questões éticas, o respeito e a obediência à hierarquia (decorrente, como se depreende, da exigente condição militar) e, expressivamente, as refinadas artes diplomáticas, tão delicadas quanto necessárias em contexto de guerra. 
O enredo do filme reporta-nos ao mês de agosto do ano de 1944 e à França ocupada pelas forças nazis (desde o ano de 1940). Enquanto que o exército aliado prepara a sua marcha em direção a Paris, o general alemão que governa a cidade - Dietrich von Cholitz - prepara-se para concretizar as ordens recebidas diretamente de Hitler, no sentido de destruir a capital francesa. Nesse sentido, as pontes sobre o Sena, o Palácio (e Museu) do Louvre, a Catedral de Notre Dame, a Torre Eiffel e diversos outros monumentos são armadilhados pelas forças ocupantes, perspetivando-se a sua destruição próxima. 
O cônsul sueco - Raoul Nordling - encontra-se então com von Cholitz no sentido de o demover de executar as ordens insanas de Hitler, potencialmente conducentes à morte de inúmeros inocentes, bem como à perda irreparável de alguns dos mais relevantes e emblemáticos monumentos da Humanidade. 
Aborda-se assim, de novo (à semelhança do verificado em "Os homens dos monumentos"), a questão - nem sempre valorizada - da gravidade e irreversibilidade dos danos patrimoniais associados às operações de guerra. Como todas as partes beligerantes deveriam saber (leia-se "respeitar"), nem todos os fins justificam os meios... 
Sendo verdade que o encontro entre os protagonistas do filme é ficcionado, não menos verdade será o facto de situações de tal natureza não serem inéditas, sendo conhecidas do público, não raras vezes, somente muitos anos após a sua ocorrência. Para que tal aconteça, aliás, tanto contribui o trabalho dedicado e exaustivo dos mais reputados historiadores quanto (embora mais ocasionalmente) os "frutos do acaso" ou as "revelações" tardias de alguns dos intervenientes diretos em distintos episódios de guerra. 
...Voltando ao filme: vejam-no, se puderem (já que, tendo estreado em Portugal a 24 de abril, já saiu das salas de cinema). 
Para despertar a curiosidade e o interesse no filme, deixo o respetivo trailer, legendado em português. 


Em alternativa, o respetivo link.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

A propósito d' Os Homens dos Monumentos

A indústria cinematográfica tem a capacidade de surpreender, recorrentemente, quer os cinéfilos mais convictos e exigentes, quer o espectador ocasional de uma qualquer produção da 7.ª arte. Por motivos vários, integro-me (mais) neste segundo tipo de apreciadores de cinema.
Não posso deixar de registar - ou, mais expressivamente, congratular-me - com a apresentação recente, nas salas de cinema mundiais, de um filme bem conseguido, fazendo jus a uma peculiar brigada militar, surgida durante a Segunda Guerra Mundial, composta por uma escassa "meia dúzia" de homens, com o objetivo primordial de reaver as obras de arte que haviam sido saqueadas pelos nazis durante os anos da guerra e, subsequentemente, devolvê-las aos respetivos donos. E esta seria, pois, na essência, a sua nobre e oportuna missão.
Nobre, porquanto pretendia salvaguardar alguns dos mais representativos tesouros artísticos da Humanidade; oportuna, porque o seu êxito dependia, em grande parte - como se compreenderá - da rapidez com que a mesma fosse concretizada, considerando-se os  riscos efetivos de perda do paradeiro das várias obras de arte roubadas (por "encomenda" de Hitler) e/ou a sua destruição efetiva, se não se atuasse, "no terreno", no mais curto espaço de tempo.
Seguramente que, em muitos outros contextos e teatros de guerra, terá feito falta a criação de unidades militares como esta - a evocada no filme - assumidamente imbuídas de preocupações culturais, designadamente, de natureza patrimonial.
Regista-se, todavia, a exiguidade dos meios afetos a missão em causa.
Por outro lado, no entanto, fica bem patente a convicção e o empenho dos protagonistas, em concluir com sucesso a tarefa de que foram incumbidos. Custe o que custar...
Sim, porque as batalhas da preservação do Património, por vezes, são travadas sem "armas" suficientes, como todos sabemos...

Aqui fica, pois, o trailer do filme que recomendo: "The Monuments Men". Num cinema à sua espera.


Em alternativa, o respetivo link.